Saber
presentear: será mesmo que é melhor dar do que receber?.
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Quando
as festas estão a todo vapor e o pânico começa a tomar conta daqueles
que saem em busca do presente certo para os familiares, amigos e colegas
de trabalho, vale a pena refletir sobre uma questão não muito festiva:
será
que as pessoas sabem dar presentes?
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E
o que as pessoas presenteadas pensam de fato sobre os presentes que
recebem?
Joel
Waldfogel,
professor de negócios e de políticas públicas da UNIV.
DE WHARTON joga um pouco de luz sobre essa questão em um
ensaio intitulado:
A
irracionalidade do consumidor é maior do que sua soberania de escolha?
De
acordo com Waldfogel,
que trata da questão do ponto de vista econômico, portanto sem intenção
alguma de estragar as comemorações de final de ano, as compras feitas
pelos consumidores geram um nível de satisfação (ou
valor) entre:
Em
outras palavras, as opções de consumo feitas por terceiros tendem a
gerar menos satisfação do
que as opções pessoais. Embora, por um lado, tal coisa pareça evidente,
os estudiosos que se ocupam da teoria comportamental coligiram um conjunto
impressionante de evidências de que o comportamento do consumidor,
conforme constatado em diversos contextos artificiais e do mundo real, não
é totalmente racional, explica Waldfogel.
Já
foi possível detectar, por exemplo, "lapsos
de racionalidade"
na
área da poupança para a aposentadoria na qual as pessoas não calculam
com precisão quanto devem de fato poupar, deixando assim de economizar
tanto quanto deveriam para quando se aposentarem e também na área de
seguros, uma vez que os proprietários de imóveis em regiões sujeitas
a inundações não fazem seguro conta enchente, embora vivam em áreas
propícias a alagamentos. Na cabeça dessas pessoas, as tragédias do
mau tempo só acontecem a outros, e não a elas.
Mesmo
na área de opção pessoal de escolha do consumidor, assunto do ensaio de
Waldfogel,
pesquisas anteriores mostram que as pessoas têm dificuldade em antecipar
suas preferências e até mesmo em se lembrar delas.
Um
estudo constatou que os indivíduos, quando optam por um determinado
tipo de lanche no decorrer de uma semana qualquer, fariam outra opção
se sua escolha tivesse de ser antecipada em três semanas. Neste último
caso, a escolha apresenta mais variações, sinal de que as pessoas não
conseguem predizer acertadamente seu gosto.
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Outro
estudo mostrou que, ao tentar se lembrar de suas preferências, as
lembranças das pessoas não se baseiam cem por cento na totalidade de
sua experiência; pelo contrário, elas tendem a se basear nas melhores
ou piores partes, bem como nos momentos finais dessas experiências.
Tais
pesquisas, observa Waldfogel,
suscitam questões sérias em torno das preferências do consumidor,
sobretudo se seriam confiáveis mesmo nos contextos mais objetivos.
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Suéter
vermelho x suéter azul:
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Para descobrir
se há ou não racionalidade em qualquer esfera do comportamento do
consumidor, Waldfogel
analisou uma transação econômica simples, a compra de objetos de
consumo, tais como vestuário, livros e CDs. A idéia era descobrir se os
indivíduos escolhiam melhor aquilo que desejavam quando eles mesmos
faziam a aquisição, e não outra pessoa.
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Waldfogel
escolheu para laboratório de testes as festas do Natal e do Hanuka
judaico, uma época em que os indivíduos ganham diversos objetos
experimentais escolhidos por outras pessoas. As avaliações que elas
fazem desses produtos podem, então, ser comparadas às avaliações de
uma amostra controlada de suas próprias aquisições, informa o estudo.
Os
presentes analisados foram, primeiramente, aqueles dados, sobretudo
pelos amigos; depois, por pessoas mais próximas e por membros mais íntimos
e também mais afastados da família. Waldfogel analisou 1.044 presentes
e 538 aquisições pessoais de 202 alunos universitários de três
universidades em princípios de 2002, pouco depois das festas de fim de
ano.
O
autor colheu informações sobre a relação entre o doador e o recebedor,
bem como uma descrição do objeto comprado. A amostra trabalhou ainda com
500 casos em que os entrevistados compraram e receberam o mesmo tipo de
objeto (por
exemplo, CDs).
Os produtos eram os mais variados possíveis: roupas, livros, produtos
eletrônicos, sapatos, cosméticos, videogames, eletrodomésticos e jóias..
Com
base na pesquisa feita, Waldfogel
concluiu que os indivíduos obtinham um nível médio de satisfação de
18% a mais por dólar em suas aquisições pessoais em comparação com
os produtos presenteados (sem contar o valor sentimental).
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Os
presentes mais caros foram dados por avós e por outros indivíduos mais
próximos, talvez porque tenham contato mais íntimo com o ganhador ou
porque soubessem detectar melhor as preferências específicas dos indivíduos.
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Os
resultados encontrados reforçam o respeito dos economistas pela
soberania do consumidor nos casos de simples escolha imediata do objeto
de consumo, explica Waldfogel.
Para
o autor, a pesquisa feita atende às necessidades de diferentes públicos.
Por exemplo, varejistas que queiram saber de que modo podem ajudar o
consumidor a comprar coisas que sejam do agrado da pessoa a ser
presenteada.
Para
isso, pode-se recorrer a um vale-presente ou a uma lista de preferências
como a que oferece a Amazon,
na qual as pessoas podem inserir, a qualquer momento, a descrição dos
objetos que gostariam de ganhar.
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As
listas de presentes de casamento baseiam-se nessa mesma idéia; o noivo
e a noiva escolhem determinados produtos a preços também
predeterminados, possibilitando dessa forma que amigos e parentes façam
a escolha certa.
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A
principal distinção feita no estudo refere-se ao valor que atribuo às
coisas que compro para mim e àquelas que você compra para mim, observa
Waldfogel.
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Isto
se deve, em parte, ao fato de que os objetos que compro para mim são
diferentes daqueles que ganho. Mesmo na comparação entre objetos
semelhantes por exemplo, um CD comprado por mim e outro que me foi
presenteado há um diferencial que persiste. Não é nada muito
relevante, mas não deixa de ser significativo.
Obviamente
o fato de que o processo de presentear implica em perda de valor para o
indivíduo que recebe o presente ignora os benefícios que tal transação
pode proporcionar a quem dá o presente, observa Waldfogel.
Se acabássemos com a prática de dar presentes, incentivando as pessoas a
dar dinheiro no lugar de objetos, o ganhador, de certa forma, seria
beneficiado com essa troca, mas não seria uma experiência tão boa assim
para o doador. Como aponta o estudo:
O
ato de presentear permite ao doador demonstrar o quanto conhece das
preferências de quem recebe o presente, impõe certas obrigações
morais aos presenteados
[...] ou envia sinais sociais...
Além
disso, mesmo quem recebe não está imune ao valor sentimental associado
ao recebimento do presente, diz Waldfogel.
Em meu estudo, pedia ao recebedor que não levasse em conta esse
sentimento. Contudo, se o valor sentimental só puder ser expresso por
meio de um presente, segue-se que pedir às pessoas para que dêem outra
coisa, como dinheiro, por exemplo, sufocaria
a expressão desse valor
sentimental, acarretando em nova perda.
Todavia,
se o valor sentimental puder ser transmitido por meio de um suéter azul
ou vermelho, e se você gosta do vermelho, então esta é sua melhor opção.
O
Grinch:
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Waldfogel
redigiu um ensaio em 1993 intitulado “O
prejuízo do Natal”,
em que indagava aos entrevistados que valor atribuíam aos objetos com que
eram presenteados. O autor constatou que:
O
ensaio não levava em conta os objetos adquiridos pelas pessoas para si
mesmas, observa Waldfogel,
acrescentando que o ensaio deu margem a uma enorme polêmica, a ponto de
alguns entrevistados o compararem ao Grinch
personagem do filme homônimo que detesta o Natal. Além disso, diversos
estudos subseqüentes colocaram em dúvida os resultados da pesquisa de Waldfogel
ao afirmarem
que os recebedores valorizam os presentes recebidos em um grau que supera
o preço pago por eles.
No
ensaio de 1993, eu comparava o quanto as pessoas valorizavam seus
presentes em relação a um parâmetro de 100%, o que me permitiu
demonstrar que elas os valorizavam em 87% do preço pago. Procurei saber
também quanto os indivíduos que haviam recebido presentes estariam
dispostos a pagar por eles, diz Waldfogel.
Em
alguns casos, a resposta foi zero. Ponderei então os resultados obtidos e
cheguei a 87%. Cometi um erro, entretanto, em relação a todos os estudos
já feitos, inclusive o meu, ao comparar a avaliação das pessoas com o
parâmetro errado. O parâmetro correto de comparação teria de levar em
conta o grau de satisfação obtido pelo indivíduo ao fazer uma aquisição
para si mesmo, em vez de comparar o presente ganho a um parâmetro de
100%. Conforme o autor observa em seu ensaio atual,
ao
avaliar se as pessoas têm melhores condições do que um terceiro no
tocante à escolha de objetos para seu consumo pessoal, é importante
comparar a avaliação que faz o consumidor dos itens escolhidos por
terceiros em relação a um parâmetro que mensure o grau de satisfação
obtido com as aquisições feitas por ele mesmo.
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Os
estudos sobre os presentes dados partem do pressuposto de que as aquisições
pessoais são avaliadas pelos consumidores de acordo com o preço.
Embora a teoria do consumidor reze que o consumidor racional, que
procura maximizar sua satisfação, valorize a última unidade adquirida
pelo preço pago, é razoável supor que as aquisições pessoais, em média,
sejam valorizadas acima do preço pago...
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Nas
compras que fazemos, nossa expectativa de satisfação é de mais de
100%. E quanto aos presentes?
Se
os consumidores estiverem bem informados, supostamente mais bem informados
do que quem dá o presente, é impossível que o doador consiga superar o
desempenho do recebedor na escolha do objeto de consumo, afirma o autor do
ensaio. Por outro lado sobretudo em vista da evidência do comportamento
irracional por parte do consumidor é possível que os doadores saibam
mais a respeito das preferências dos recebedores, e dos produtos, do que
os próprios recebedores. Tudo isso aponta para o fato de que os doadores
mais familiarizados com as preferências dos recebedores escolherão
objetos mais valorizados por estes últimos e por dólar gasto.
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Limites
da irracionalidade:
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Segundo Waldfogel,
embora os resultados do estudo não coloquem em dúvida a irracionalidade
comprovada dos consumidores em outros contextos, nossos resultados indicam
que há um limite para o alcance da crítica comportamental da
irracionalidade.
É
possível que os indivíduos escolham tão mal seu objeto de consumo
que, para melhorar suas decisões, recorram a “intervenções
paternalistas” por exemplo, a intervenção de um consultor
experiente em investimentos poderia ajudar os cidadãos de mais idade a
investir o dinheiro da aposentadoria. Há consumidores, porém, que
parecem não superar o desempenho de outros nos casos de opções de
consumo imediato.
A
racionalidade talvez tenha limites, porém a irracionalidade também é
limitada. Os resultados apontam para uma esfera de tomada de decisão na
aquisição de objetos de consumo familiares na qual a soberania do
consumidor é indisputável. Em síntese, o que o autor quis dizer foi
que:
comprar
coisas sem saber o que as pessoas desejam é receita certa de presente
que ninguém gostaria de receber.
..
PROFESSOR
CITADO NO ARTIGO
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